BYD Atrasos PCD: Clientes Processam Marca por Não Entrega

Atrasos Crônicos na BYD Afetam Compradores PCD
A BYD, gigante automotiva chinesa, enfrenta uma onda de insatisfação e processos judiciais no Brasil devido a atrasos significativos na entrega de veículos adquiridos por Pessoas com Deficiência (PCD). A modalidade de venda direta, que deveria facilitar a aquisição com isenção de impostos, transformou-se em uma saga de espera e prejuízos para muitos consumidores, que recorrem à Justiça para garantir seus direitos.
Casos Emblemáticos de Atraso
Entre os diversos relatos, destacam-se as histórias de Karyne de Freitas e Gustavo Kaufmann. Karyne, motorista particular em Cuiabá, adquiriu um BYD Song Pro GL em outubro do ano passado por R$ 147.990 (preço PCD), vendendo seu Corolla e financiando o restante. Após meses sem o carro, sem poder trabalhar e com as parcelas do financiamento chegando, ela obteve uma liminar judicial em fevereiro deste ano, encerrando uma espera de 130 dias.
Gustavo Kaufmann, analista legislativo em Brasília, pagou à vista por um BYD King GS azul em novembro, por cerca de R$ 160.000. Sua data de entrega, originalmente 23 de janeiro, foi sucessivamente adiada. Apesar de recorrer ao Reclame Aqui e ao SAC, as promessas não foram cumpridas, e ele se viu sem o carro por mais de 160 dias. Inconformado, Gustavo planeja acionar a BYD judicialmente para reaver os R$ 160 mil e o valor referente aos juros que deixou de ganhar.
Entraves na Venda Direta e a Falta de Transparência
Clientes afetados relatam uma preocupante falta de transparência por parte das concessionárias na condução dos problemas. A modalidade PCD, caracterizada pela venda direta da fábrica ao cliente, com a concessionária atuando apenas como intermediária, tem gerado conflitos de comunicação. Muitos consumidores são mantidos no escuro ou recebem justificativas evasivas sobre os atrasos.
Problemas de Faturamento e Reconhecimento de Pagamento
A raiz dos problemas parece estar em falhas administrativas. Há relatos de concessionárias que acusam a BYD de demorar para faturar pedidos e, posteriormente, reconhecer os pagamentos. No caso de Karyne, a concessionária Saga afirmou que o valor foi repassado à montadora em 2 de janeiro, mas o reconhecimento administrativo pela BYD só ocorreu em 10 de fevereiro, um mês depois, etapa crucial para a liberação do veículo. A situação não é isolada da rede Saga, com casos semelhantes em diversas outras concessionárias pelo Brasil.
Impacto e Consequências Legais para Consumidores
O impacto para os consumidores vai além da frustração. Karyne ficou meses sem trabalhar, perdendo renda e arcando com parcelas. Gustavo teve seu capital imobilizado por longos períodos. Diante dos prejuízos e da inação, a Justiça tem sido o caminho para muitos. A defesa da BYD, em alguns processos, alega que os consumidores poderiam usar outro carro ou que não havia prazo contratual específico para a entrega, minimizando os atrasos como "discussão logística" e não como "abalo moral". No entanto, o crescente número de ações judiciais sugere que os tribunais podem ter uma visão diferente sobre o descumprimento dos prazos e as suas consequências para os compradores.

Karyne de Freitas, 48 anos, trabalha como motorista particular em Cuiabá (MT) e sentiu que precisava de algo mais novo do que seu Toyota Corolla 2020/2021, para dar conta tanto das corridas como Uber Black quanto dos clientes corporativos que atende em paralelo.
Por conta disso, a motorista, portadora de deficiência e com mobilidade reduzida, viu na BYD uma boa alternativa de renovação. Assim, em outubro do ano passado, fechou a compra de um BYD Song Pro GL, com isenção de impostos voltada a clientes PCD que derrubou o preço total do SUV híbrido para R$ 147.990.
Diante da boa impressão deixada pela concessionária Saga de Cuiabá (MT), decidiu confiar: vendeu seu Corolla e usou parte do recebido como entrada para o Song Pro. O resto do dinheiro veio de um financiamento em 60 parcelas mensais de R$ 2.884,40 cada.
Parecia um negócio promissor para a profissional, mas tudo deu errado em seguida. Karyne começou a insistir para receber o veículo junto à concessionária que intermediou a venda direta, mas não recebia seu carro de jeito nenhum.
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Nas conversas com os vendedores, chegou a aceitar uma mudança na cor do veículo para recebê-lo logo. Enquanto isso, não tinha mais o seu Corolla para trabalhar, pois este já havia sido entregue na troca, e as parcelas do financiamento chegavam mensalmente.
BYD Song Pro 2026
Divulgação
Após meses sem trabalho e sem carro, a solução foi recorrer à Justiça, obtendo uma liminar para que, enfim, o Song Pro fosse entregue em 25 de fevereiro deste ano. Uma espera de 130 dias, relatada no processo ao qual Autoesporte teve acesso.
O caso de Karyne não é isolado: pelo Brasil, diferentes clientes PcD relatam atrasos intoleráveis na entrega de seus carros por parte da BYD — e a Justiça vem sendo a opção adotada, cada vez mais, para que a fabricante entregue os veículos vendidos.
Concessionária BYD
Foto: Eduardo Passos/Autoesporte
Pagou à vista e ficou sem nada
Gustavo Kaufmann, de 46 anos, trabalha como analista legislativo em Brasília (DF), onde, em novembro do ano passado, encontrou um BYD King GS azul que parecia a escolha ideal.
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Atraído pela proposta tecnológica da marca, Gustavo topou comprá-lo à vista. Como é portador de esclerose múltipla, também conseguiu descontos para PCD e adquiriu o sedã por cerca de R$ 160.000, pagos logo após o Natal.
Como no caso de Karyne, entretanto, os atrasos na chegada do veículo foram se acumulando. A data original de entrega — 23 de janeiro — foi adiada um dia antes do combinado, indefinidamente. E esse foi só o começo.
BYD King 2026
Foto: Divulgação
Entre respostas evasivas dos vendedores, Gustavo recorreu ao Reclame Aqui e ao SAC da montadora, mas o máximo que conseguiu foi uma nova promessa de entrega para o começo de abril, que também não foi cumprida.
Isso porque, no dia 10 do respectivo mês, a loja informou que o King do comprador havia sido embarcado em um navio que partira da China oito dias antes. Dessa forma, ele só chegaria em 4 de junho — 161 dias corridos após o pagamento do sedã.
Cada vez mais inconformado, Gustavo exigiu prazos mais ágeis e recebeu uma proposta da concessionária Saga: um King branco, a ser entregue no dia 13 de abril, com um chaveiro de brinde. Ele aceitou, mas o carro não veio mais uma vez. Em sua última conversa com a reportagem, informou que recebera o mês demaio como a nova data de entrega, mas já não tinha muita fé na palavra da loja.
Enquanto recorre ao carro da esposa e a viagens via aplicativo, sua preocupação maior agora é reaver, na Justiça, os R$ 160 mil que, há quatro meses, deixou na mão da BYD e ficou a ver navios. “Até já pedi para o meu consultor de investimentos calcular quanto dinheiro eu deixei de ganhar, porque esse valor não esteve aplicado durante esse tempo. Isso e outras informações serão juntadas no meu processo”, contou.
A culpa é de quem?
Envolvidos se queixam de falta de transparência dos lojistas e de prazos claros para a entrega
Foto: Thinkstock
Os carros comprados por pessoas com deficiência (PCD) entram na modalidade de vendas diretas, nas quais a concessionária só intermedia o contato entre cliente e fábrica para a entrega do veículo. Clientes ouvidos por Autoesporte, entretanto, queixaram-se da falta de transparência dos lojistas na condução dos problemas.
Sob anonimato, um dos consumidores afetados relatou um caso em que a vendedora afirmou depender apenas de espaço na agenda para finalmente entregar o carro atrasado. O cliente, entretanto, não acreditou e pressionou a mulher, que mudou de tom e abriu o jogo.
“Vou te falar a realidade do que está acontecendo. Meu financeiro não consegue te liberar o carro porque a BYD não transferiu o seu pagamento para o seu chassi”, teria afirmado a lojista. Sem essa etapa, nas palavras dela, o sistema interno utilizado da fábrica ao showroom tornava impossível qualquer ação no sentido de liberar o carro para o cliente.
Justificativa semelhante foi dada pela Saga de Cuiabá, que acusou a BYD de ter levado quase um mês só para faturar o pedido de Karyne. Depois disso, levou-se mais de um mês só para a fábrica reconhecer que o pagamento havia sido efetuado.
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Foto: Eduardo Passos/Autoesporte
“O valor recebido pela concessionária foi devidamente repassado à montadora em 2 de janeiro de 2026. Todavia, o reconhecimento administrativo desse pagamento pela montadora ocorreu apenas em 10 de fevereiro, etapa indispensável para a continuidade do fluxo operacional da entrega”, afirmou a Saga no processo, em que sequer contestou a razão de Karyne.
Apesar da coincidência, não é apenas a rede Saga que lida com esses entraves: casos semelhantes foram apurados pela reportagem em outras seis concessionárias diferentes, em estados do Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste do Brasil. Em comum, também há as respostas evasivas da rede e as remarcações constantes na entrega.
O que diz a BYD
Questionada por Autoesporte, a BYD afirmou que "comenta a situação apenas individualmente". A marca solicitou as evidências cedidas por Gustavo Kaufmann, mas a reportagem optou por liberar informações limitadas, a fim de resguardar testemunhas do problema.
Quanto ao problema de Karyne de Freitas, as informações do processo são públicas e foram encaminhadas aos porta-vozes da marca. Nesse caso, entretanto, a BYD afirmou que responderá apenas judicialmente.
Ela já fez isso, inclusive: nos autos, a defesa da montadora chinesa afirmou que a motorista "poderia ter utilizado outro carro para trabalhar enquanto esperava pelo seu Song Pro". Também afirmou-se que não havia “estipulação contratual de prazo específico de entrega [do carro] pela fabricante”.
Por fim, o pedido de indenização pleiteado pela defesa de Karyne seria uma tentativa de “elevar ao patamar de abalo moral” o que seria, segundo os advogados da BYD, apenas “uma discussão logística”.
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Fonte: Auto Esporte
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